LinkJosé Régio - Cântico NegroDec 16, '07 2:59 PM
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Fantástico poema de José Régio, que espreito quando me custa tomar algumas decisões difíceis. Exemplarmente dito por João Villaret. (No link a negrito)

joaobatistalago wrote on Jan 5
José Régio, aos meus olhos, é um dos principais poetas do mundo contemporâneo. Ouso, com muita humildade, dizer que somos ou dizemos coisas parecidas. Contudo o correto mesmo é dizer que sou seu aprendiz.
joaobatistalago wrote on Jan 5
Sobre nós: JOSÉ RÉGIO E EU
__________

ENTRE DEUS E O DIABO
(A eterna saga do Homem)
PARTE I




A MAÇÃ DO ÉDEN

O cadáver da vida
Floresceu entre os parreirais
O diabo lho fizera prece
Deus e o diabo beberam
Do mesmo vinho dionisíaco
Hoje apolínicos em suas dimensões
Ambos reclamam Adão e Eva
(João Batista do Lago)

CÂNTICO NEGRO

“(…)
Deus e o diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo
(…)”
(José Régio)

* * * * *

INTRODUÇÃO

A maior e mais desesperadora saga existencial do Homem é, certamente, a explicação racional – e científica – de sua gênese. É na origem do Homem que se encontram todos os problemas, portanto, todas as hipóteses. Explicar-se, a si e a todas as outras formas de vidas existentes, sejam animadas ou inanimadas, é a grande questão do pensamento.
A primeira hipótese levantada desde que o Homem se fizera consciente de ser possuidor da tecnologia do pensamento foi, precisamente, a questão fundamental: “Como surgi?”; “De quem surgi?”, “Onde surgi?”; “Quando surgi?”; “O quê provocou o meu surgimento?”. Todas essas questões, ainda hoje, carecem de explicações, apesar do desenvolvimento da tecnologia em todos os campos do conhecimento do Homem (homem/mulher).
Entretanto, o Homem, no processo da sua evolução, tem procurado explicar a sua origem de todas as formas e maneiras possíveis. Seria trabalhoso e infrutífero falar de todas essas tentativas, mas ao mesmo tempo não podemos deixar de mencionar algumas, por mínimo que seja, pois, são tentativas gnosiológicas de conhecer por intermédio de pesquisas e estudos, especialmente do valor objetivo dos limites e das condições de existência enquanto relação entre um sujeito e um objeto.
Essa sede de conhecimento – seja prático, empiricista ou científico – é que nos move como verdadeiro motor-de-popa, i.é., que nos impulsiona no sentido de desvendar e desvelar o que se nos é difícil de entender, compreender ou explicar, por mínimo que seja, ou seja, que nos conduz aos mais diversos campos dos saberes. Não é à-toa que buscamos nos descobrir por meio de caminhos diversos e dispersos. Caminhos esses que sempre têm como fonte do conhecimento o Homem.
E esse conhecimento torna-se mais difícil tanto quanto nele nos aprofundamos. A cada conhecimento adquirido, aprendido ou apreendido, vivenciado ou experienciado, sobre quaisquer “coisas” que possamos tê-las como sujeito ou objeto em nossas relações, somos naturalmente conduzidos a novos “buracos” na estrutura do nosso próprio conhecimento. A cada explicação que damos, surgem outras tantas explicações a serem dadas. Essa é a dinâmica da existência do saber. Por mais “embrutecido” que seja o Homem é, ele, uma estrutura de conhecimento, além do que é poço sem fundo de questionamentos de-si e para-si. Não há, pois, como negar essa evidência.
Se tomarmos isso como Verdade vê-se, desde sempre, que na base de tudo ou de todo conhecimento está o Homem. Sendo assim poder-se-á dizer que todo conhecimento é homocêntrico. Sendo assim o Homem é um Ser concêntrico. Sendo assim é, o Homem, o deus e o diabo de-si e para-si, como nos revelam em seus poemas epigrafados João Batista do Lago (brasileiro) e José Régio (português). Mas no caso de ambos poetas vê-se logo que o pensamento poético neles interposto não é puramente pictórico, ou seja, apenas uma pintura das suas representações cognoscitivas. Eles imprimem às suas líricas o advento do “eu” que surge como uma tipologia de idéia racionalizante, ou seja, como material explosivo para explicar suas razões concludentes. É como se cada um dissesse a seu modo: “o ‘meu’ pensamento consegue justificar perante ‘si’ próprio”. Nem em João Batista do Lago, nem em José Régio, encontramos “pintura” com tintas de quaisquer religioões, muito embora, em ambos, exista conceito abstrato de religiosidade. Em ambos o que encontramos, de fato, é a construção do sujeito que se relaciona com seu objeto: seja ele deus; seja ele diabo. Se, por um lado João Batista do Lago diz: “Deus e o diabo beberam/ Do mesmo vinho dionisíaco”; por outro, José Régio assevera: “Deus e o diabo é que me guiam, mais ninguém”. É o mesmo processo fenomenológico criador-criatura.
E dentro desses processos de criações específicas os poetas elaboram, de per se, as suas elucubrações do discurso da origem do ser, o que, por sua vez, os transformam em sujeitos ontológicos. Senão vejamos: “Hoje apolínicos em suas dimensões/ Ambos reclamam Adão e Eva” (João Batista do Lago) e “Mas eu que nunca principio nem acabo/ Nasci do amor que há entre Deus e o diabo” (José Régio). Veja-se como eles se relacionam com seus objetos: deus e diabo. Em João Batista do Lago encontramos deus e o diabo apolínicos – o que já é um “belíssimo” paradoxo – reclamando a existência de “si” nas personagens bíblicas de Adão e Eva – criaturas à imagem e semelhança do Criador; em José Régio, já encontramos o Homem racionalizando metaforicamente sua origem, como se dissesse de “si” para-si: “somos da mesma natureza, ou seja, ‘eu’ e os ‘meus objetos: deus e diabo’ somos equivalentes”.
Doutra sorte, a tentativa desesperada de ambos poetas para se explicarem, para se entenderem, para se compreenderem, para se construírem racionalmente sujeitos do Ser, remete-os – e nos remete consequentemente – à tentativa de explicação da origem do universo, por exemplo, Tales de Mileto, inferira que o princípio primordial devera ser identificado na Água; Anaximandro dissera ser o Infinito (ilimitado) uma realidade primigênia e indiferenciada, sem limites e sem fronteiras; Anaxímenes retornara ao campo dos elementos naturais para dizer que o princípio primordial era o Ar. Como se vê, a desesperada tentativa do Homem, em encontrar resposta para suas dúvidas, não é de hoje. Remonta mesmo aos primitivos homens, nossos ancestrais, que, segundo nos ensinam os manuais de Antropologia e Sociologia, mantinham certas orgias evocatórias de uma divindade qualquer.
filipeantunes wrote on Jan 5, edited on Jan 6
Bebo desse vinho contigo. Guiamo-nos com Deus e o Diabo. Não encontro outra forma. Só nós humanos "criamos desumanidades".
Bem hajas João, pelo verso em prosa que deixaste acima.
joaobatistalago wrote on Jan 6
Vou vasculhar no meu PC este poema dito por Henrique Sousa, para enviar-te!!!
Obra prima.
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