Blog EntryA Vingança do CaniçaJul 21, '08 7:42 PM
for everyone

 

Nos anos 30 e 40 do séc. XX, o comunismo, o nacional socialismo e outros “ismos” afins estavam no seu apogeu, sendo de moda glorificar os regimes e endeusar os seus dirigentes. Estaline para se perpetuar, plantou uma floresta de estátuas suas nas praças da Rússia, além de ornar tudo o que era edifício público com foices e martelos para enaltecer o partido. Hitler encheu a Alemanha de cruzes suásticas, portentosas construções e estádios grandiosos, para glória do tal Terceiro Reich, que duraria mil anos. Mussolini destruiu parte da velha Roma, para edificar obras que rivalizassem com as dos Césares. Franco, apesar da penúria espanhola após a guerra civil, mandou erguer um memorial faraónico para os falangistas no Vale dos Caídos. Salazar, não querendo beliscaduras no ego nacional, fez obra à sua medida e dos nossos cofres, celebrando a coincidência da data da fundação (1140), da restauração (1640) e da consolidação do Estado Novo (1940). O estilo simples e uniforme das construções, foi apelidado criticamente pelos vanguardistas de “Português Suave”, por similitude com o célebre maço de tabaco. Construíram o Padrão dos Descobrimentos, o Estádio Nacional, pontes, hospitais, faculdades, e tribunais nas cidades maiores. Em pacatas vilórias, aldeias e lugarejos, seguindo um critério que só o despótico governo conhecia, foram edificados aqui um chafariz, ali uma escola primária, além uma casa do povo, e algures uns simples padrões alusivos às referidas datas.

A minha aldeia foi contemplada com um belo chafariz em 1933 e um pequeno padrão em 1940. O chafariz continua a deitar boa água e a embelezar a praça de entrada de Vale de Estrela. O padrão foi erigido num monte sobranceiro ao povoado, assinalando um local único na rede hidrográfica nacional, pois das suas três vertentes saem riachos que drenam água para as três maiores cidades portuguesas: Lisboa, Porto e Coimbra. Lá na aldeia ninguém sabia, mas ficamos vaidosos por termos um sítio tão importante, como explicaram uns Srs. Engenheiros Hidráulicos que foram à inauguração: “Na vertente Nordeste nasce o ribeiro da Quelha, que pela ribeira das Cabras desemboca no rio Noéme, que é afluente do rio Côa, que entra no turbulento rio Douro, que banha o Porto. Do lado Noroeste, o ribeiro do Lameirão leva a água pelo Coval até à ribeira da Corujeira, afluente do calmo Mondego, que suaviza Coimbra. Da vertente Sul sai o ribeiro de Rendo, que se junta à ribeira da Vela para engrossar o rio Zêzere até perto de Constança, onde encontra o grande Tejo, que leva as nossas águas e mágoas até Lisboa”.

 

 

 

Esse local aprazível e de largas vistas junto ao “Campo da Bola”, era frequentado pela rapaziada nas tardes futeboleiras de Domingo e esporadicamente por casais de namorados a horas mansas. Mas o incontestado Sr. do Padrão era o Caniça, que aos 57 anos era protagonista da vida mais azarada e rocambulesca daquelas paragens. Solitário, atoleimado e meio lunático, aí curtia pelos fins de tarde a sua neurose em sorumbáticos silêncios, ou arengando indecifráveis monólogos. Abandonava o retiro ao crepúsculo, refugiando-se numa tasca onde gastava uns parcos tostões em copos de vinho rasca, para que a inevitável embriaguez lhe enganasse a fome e a insónia durante as opressivas noites de solidão.

Ainda jovem arrastou os livros pelos cafés da cidade, completando a custo o 5º ano até ser chamado a cumprir serviço militar como cabo miliciano em Coimbra. Numa noite de copos teve uma rixa onde partiu meia dúzia de dentes e um braço a um estudante de Direito, que por azar dos azares era filho de um coronel do seu regimento. O incidente deu-lhe direito a uma exagerada “porrada” tropeira, que o despromoveu a soldado raso, o humilhou no chilindró por três meses e o atirou para uma comissão na guerra da Guiné por dois anos. Detestou Coimbra e a presunção dos seus doutores. Cumprida a milícia mudou-se o Caniça para o Porto, onde um tio lhe arranjara ocupação numa instituição bancária. As noites na Ribeira e o mulherio exigiam mais do que o magro salário de caixa proporcionava, pelo que umas pequenas falcatruas sustentaram a vida boémia durante uns anos. Mas foi apanhado, condenado a restituir a massa e expulso do banco sem apelo nem agravo. Odiava o Porto e a tristeza que aí vivera. Passado algum tempo passeava-se em Lisboa, onde um primo "baronete" de um grande partido lhe conseguira emprego como porteiro de um Ministério. Deixou as noitadas, fez umas economias, apaixonou-se e casou com uma rapariga vistosa e mais nova. Foi quase feliz durante uns anos, até a jovem esposa o presentear com uma enramada cornamenta. Deprimido após o divórcio, regressou ás noites de fado e vinho, vendo-se aos 45 anos feito um farrapo, sem dinheiro, sem emprego, e sem família. Abominou Lisboa e a sua gente, voltando à aldeia para se abrigar na velha casa que o pai lhe deixara em herança. Nunca suplicou ajuda a ninguém, refugiando-se nas suas meditações no padrão e no reles aconchego das tascas, onde gastava a maior parte da mísera pensão de sobrevivência. De poucas falas enquanto bebia, só muito raramente se lhe ouvia murmurar: “Hão-de pagar-mas”. “Quem Caniça? Quem te vai pagar o quê?” perguntavamos.  Com os olhos desorbitados fitava o infinito e acrescentava: “Esses gajos ricos do Litoral, cambada de filhos de puta! Os doutores de Coimbra, os banqueiros do Porto e os politicos de Lisboa. Hão-de pagar-mas”.

Numa daquelas tardes de Fevereiro, em que as nuvens avermelhadas sobre a Estrela anunciam um frio de trespassar ossos, viram o Caniça mais agitado que o habitual gritar no cimo da escadaria, enquanto se aliviava numa abundante mijatada em redor do padrão: “Cá vai água amarela e salgadinha para todos vós merdosos, directamente da fonte santa do Caniça.” Ninguém ligou, que o Caniça logo baixaria ao povoado para emborcar uns tintos. Mas essa noite não regressou! Foi encontrado na manhã seguinte, gelado e enteiriçado como um bacalhau seco, de braguilha aberta e um leve sorriso na face cadavérica. A secreta vingança do Caniça estava consumada.

Fomos todos enterrar o Caniça, num dos funerais mais carregados de gente que a aldeia já viu, rumando de seguida à tasca para umas cervejas em sua memória. Alguém me segredou que nessa noite, a exemplo do Caniça, vários maganos se dirigiram ao padrão para esvaziar as túrgidas bexigas, em colectivo e patético desagravo pelo desprezado e esquecido Interior Beirão.


16 CommentsChronological   Reverse   Threaded
suallinda wrote on Jul 22
Filipe........que bela prosa, tão pitoresca, adorei meu amigo.
como você escreve bem, parabéns!
beijos
Eliane
Comment deleted at the request of the author.
Comment deleted at the request of the author.
filipeantunes wrote on Jul 24
Sai da alma e do coração Eliane. Obrigado.
luaprateada wrote on Jul 26
Fui do riso a lagrima, assim, seguindo o FLUIR DE SUA NARRATIVA!
Consegue fazer a Historia e "estorias", correrem num caudal elegante e e com ligeiras ondulacoes que em espumas brancas murmuram de pedra em pedra, quais pelas ribeiras e rios de que nos da' conta_E ENCANTA_!

Consegue, assim, sem sequer "se preocupar" se o seguimos atentamente, ou nao, porque tal comos as nascentes, as ribeiras e os rios so' se detem para se lancarem no MAR_MAR DE EMOCAO_ em que eu fico e estou certa que ficarao os restantes (ou a maioria) LEITORES!

Claro que nao vou ADJECTIVAR:_ESTA' (por merito absoluto e, proprio, e em antecipacao) ADJECTIVAD_!
...........................................

EXCELENTE FIM DE SEMANA!

Heloisa
mafaldacoimbra wrote on Jul 26
Está muito bom, Filipe. Verdadeiramente inspirado!
Beijo.
filipeantunes wrote on Jul 27
tal comos as nascentes, as ribeiras e os rios so' se detem para se lancarem no MAR
Por vezes as ideias saem assim soltas e livres. Ás vezes parece que têm barragens a impedi-las de fluir. Obrigado Heloísa. Bjs.
mariacarvalhosa wrote on Jul 28
Mas que magnífico contador de histórias me saíste, amigo Filipe! A tua prosa, escorreita e fluida, consegue prender a atenção do princípio ao fim, num registo bem-humorado, que me põe "aquele" sorriso nos lábios... e faz com que permaneça, mesmo algum tempo de pois de ter findado a leitura, estampado no rosto. Obrigada. Sei que vou repetir-me mas não resisto a insistir no pedido: continua, quero mais!
Beijos.
Comment deleted at the request of the author.
filipeantunes wrote on Jul 31
Obrigado mais uma vez Maria. Saber que os amigos apreciam estas historietas é a minha melhor recompensa. Bjs.
Comment deleted at the request of the author.
Comment deleted at the request of the author.
filipeantunes wrote on Sep 7
È bom ver os vossos comentários. As férias terminaram. Vamos ao trabalho e a estes preciosos momentos no multiply. Um abraço a todos.
tremontelo wrote on Sep 9
Os teus contos à beira da tragédia fazem-me rir. Quando vamos beber uns copitos pelo Caniça?
filipeantunes wrote on Sep 14
E a vida em si não é uma tragi-comédia?
tremontelo wrote on Sep 14
Os que vão à frente são actores. Os que estão atrás são espectadores. Está tudo em bichinha pirilau e vão avançando à espera da sua vez.

É o teatro anatómico. Looooooooooooooollll
Add a Comment
   
© 2008 Multiply, Inc.    About · Blog · Terms · Privacy · Corp Info · Contact Us · Help