
Nos anos 30 e 40 do séc. XX, o comunismo, o nacional socialismo e outros “ismos” afins estavam no seu apogeu, sendo de moda glorificar os regimes e endeusar os seus dirigentes. Estaline para se perpetuar, plantou uma floresta de estátuas suas nas praças da Rússia, além de ornar tudo o que era edifício público com foices e martelos para enaltecer o partido. Hitler encheu a Alemanha de cruzes suásticas, portentosas construções e estádios grandiosos, para glória do tal Terceiro Reich, que duraria mil anos. Mussolini destruiu parte da velha Roma, para edificar obras que rivalizassem com as dos Césares. Franco, apesar da penúria espanhola após a guerra civil, mandou erguer um memorial faraónico para os falangistas no Vale dos Caídos. Salazar, não querendo beliscaduras no ego nacional, fez obra à sua medida e dos nossos cofres, celebrando a coincidência da data da fundação (1140), da restauração (1640) e da consolidação do Estado Novo (1940). O estilo simples e uniforme das construções, foi apelidado criticamente pelos vanguardistas de “Português Suave”, por similitude com o célebre maço de tabaco. Construíram o Padrão dos Descobrimentos, o Estádio Nacional, pontes, hospitais, faculdades, e tribunais nas cidades maiores. Em pacatas vilórias, aldeias e lugarejos, seguindo um critério que só o despótico governo conhecia, foram edificados aqui um chafariz, ali uma escola primária, além uma casa do povo, e algures uns simples padrões alusivos às referidas datas.
A minha aldeia foi contemplada com um belo chafariz em 1933 e um pequeno padrão em 1940. O chafariz continua a deitar boa água e a embelezar a praça de entrada de Vale de Estrela. O padrão foi erigido num monte sobranceiro ao povoado, assinalando um local único na rede hidrográfica nacional, pois das suas três vertentes saem riachos que drenam água para as três maiores cidades portuguesas: Lisboa, Porto e Coimbra. Lá na aldeia ninguém sabia, mas ficamos vaidosos por termos um sítio tão importante, como explicaram uns Srs. Engenheiros Hidráulicos que foram à inauguração: “Na vertente Nordeste nasce o ribeiro da Quelha, que pela ribeira das Cabras desemboca no rio Noéme, que é afluente do rio Côa, que entra no turbulento rio Douro, que banha o Porto. Do lado Noroeste, o ribeiro do Lameirão leva a água pelo Coval até à ribeira da Corujeira, afluente do calmo Mondego, que suaviza Coimbra. Da vertente Sul sai o ribeiro de Rendo, que se junta à ribeira da Vela para engrossar o rio Zêzere até perto de Constança, onde encontra o grande Tejo, que leva as nossas águas e mágoas até Lisboa”.

Esse local aprazível e de largas vistas junto ao “Campo da Bola”, era frequentado pela rapaziada nas tardes futeboleiras de Domingo e esporadicamente por casais de namorados a horas mansas. Mas o incontestado Sr. do Padrão era o Caniça, que aos 57 anos era protagonista da vida mais azarada e rocambulesca daquelas paragens. Solitário, atoleimado e meio lunático, aí curtia pelos fins de tarde a sua neurose em sorumbáticos silêncios, ou arengando indecifráveis monólogos. Abandonava o retiro ao crepúsculo, refugiando-se numa tasca onde gastava uns parcos tostões em copos de vinho rasca, para que a inevitável embriaguez lhe enganasse a fome e a insónia durante as opressivas noites de solidão.
Ainda jovem arrastou os livros pelos cafés da cidade, completando a custo o 5º ano até ser chamado a cumprir serviço militar como cabo miliciano em Coimbra. Numa noite de copos teve uma rixa onde partiu meia dúzia de dentes e um braço a um estudante de Direito, que por azar dos azares era filho de um coronel do seu regimento. O incidente deu-lhe direito a uma exagerada “porrada” tropeira, que o despromoveu a soldado raso, o humilhou no chilindró por três meses e o atirou para uma comissão na guerra da Guiné por dois anos. Detestou Coimbra e a presunção dos seus doutores. Cumprida a milícia mudou-se o Caniça para o Porto, onde um tio lhe arranjara ocupação numa instituição bancária. As noites na Ribeira e o mulherio exigiam mais do que o magro salário de caixa proporcionava, pelo que umas pequenas falcatruas sustentaram a vida boémia durante uns anos. Mas foi apanhado, condenado a restituir a massa e expulso do banco sem apelo nem agravo. Odiava o Porto e a tristeza que aí vivera. Passado algum tempo passeava-se em Lisboa, onde um primo "baronete" de um grande partido lhe conseguira emprego como porteiro de um Ministério. Deixou as noitadas, fez umas economias, apaixonou-se e casou com uma rapariga vistosa e mais nova. Foi quase feliz durante uns anos, até a jovem esposa o presentear com uma enramada cornamenta. Deprimido após o divórcio, regressou ás noites de fado e vinho, vendo-se aos 45 anos feito um farrapo, sem dinheiro, sem emprego, e sem família. Abominou Lisboa e a sua gente, voltando à aldeia para se abrigar na velha casa que o pai lhe deixara em herança. Nunca suplicou ajuda a ninguém, refugiando-se nas suas meditações no padrão e no reles aconchego das tascas, onde gastava a maior parte da mísera pensão de sobrevivência. De poucas falas enquanto bebia, só muito raramente se lhe ouvia murmurar: “Hão-de pagar-mas”. “Quem Caniça? Quem te vai pagar o quê?” perguntavamos. Com os olhos desorbitados fitava o infinito e acrescentava: “Esses gajos ricos do Litoral, cambada de filhos de puta! Os doutores de Coimbra, os banqueiros do Porto e os politicos de Lisboa. Hão-de pagar-mas”.
Numa daquelas tardes de Fevereiro, em que as nuvens avermelhadas sobre a Estrela anunciam um frio de trespassar ossos, viram o Caniça mais agitado que o habitual gritar no cimo da escadaria, enquanto se aliviava numa abundante mijatada em redor do padrão: “Cá vai água amarela e salgadinha para todos vós merdosos, directamente da fonte santa do Caniça.” Ninguém ligou, que o Caniça logo baixaria ao povoado para emborcar uns tintos. Mas essa noite não regressou! Foi encontrado na manhã seguinte, gelado e enteiriçado como um bacalhau seco, de braguilha aberta e um leve sorriso na face cadavérica. A secreta vingança do Caniça estava consumada.
Fomos todos enterrar o Caniça, num dos funerais mais carregados de gente que a aldeia já viu, rumando de seguida à tasca para umas cervejas em sua memória. Alguém me segredou que nessa noite, a exemplo do Caniça, vários maganos se dirigiram ao padrão para esvaziar as túrgidas bexigas, em colectivo e patético desagravo pelo desprezado e esquecido Interior Beirão.