
A dor violenta na coxa provocava-lhe esgares e gemidos entrecortados, que aligeiraram com uma injecção e com os pensamentos que o avassalavam em turbilhão. "Como fui tão estúpido e descuidado? Que tonteira!" Vieram-lhe à memória antigas admoestações paternas: "Estuda, ou não passas da cepa torta como eu. Agarra-te aos livros. Logo verás quando andares nos andaimes, ou a cortar pinheiros. Hás-de torcer a orelha, mas já não deita sangue". Mas não, nunca teve a mais leve inclinação para o estudo. Umas discussões sobre futebol com a malta, umas "bejecas" até ás tantas, umas jogatanas de cartas e umas miúdas engatadas na discoteca ao fim de semana traduziam a sua concepção de paraíso. E afinal de contas estudar para quê? Os doutores da Vila não viviam melhor que os madeireiros, os donos das serrações, ou os negociantes de gado. Um dia teria o seu negócio e sobraria dinheiro para uma quinta como a do Mário da peixaria, uma casa apalaçada igual à do Chico da madeira e um Mercedes grande e reluzente parecido ao do Zé do talho. A vida? Ainda era novo, tinha tempo, logo se veria.
Pois viu-se! Foi mesmo cortar pinheiros. O pai cansara-se da sua coleção de "chumbos" e pediu ao compadre Chico ocupação para o rapaz. "Sempre é melhor nos pinheiros, que nos andaimes. Pelo menos tens sombra enquanto estão de pé", animaram os amigos.
O solavanco da maca renovou a dor insuportável, imterrompendo-lhe a divagação. Resignou-se com a realidade. Afinal a coisa tinha sido séria. O pinheiro ao cair dera uma reviravolta e atingira-o com grande violência na coxa esquerda. "Fractura do fémur" pareceu-lhe ouvir ao médico que observava o raio X. "Preparem-no para o bloco operatório. Ponham um soro glicosado, lavem a coxa e a pelvis e façam tricotomia". Assustou-se! Tanta palavra esquisita só por um osso partido? Tranquilizou-o uma jovem enfermeira, explicando-lhe a situação. "Precisa de ser operado e por isso vamos lavá-lo, vestir-lhe roupa do hospital e pôr-lhe um soro". "E que é isso da tri..., tri..., trico não sei quantas?" gaguejou. "Isso é o corte dos pelos que vamos fazer ao cimo da perna e coxa, para não haver infecções durante a operação". Reparou melhor nela. Bonita que se farta e simpática a miúda. Nada da carranca do médico ou da sisudez do enfermeiro mais velho que o despia. Sentiu-se incomodado quando o enfermeiro passou o "barbeio" da coxa para as partes pudendas. "Espero que esteja treinado nisto, senão ainda corta o que não deve". Subitamente abriu-se a porta e alguém chamou pelo enfermeiro, informando-o de que necessitavam da sua imediata colaboração na sala de Reanimação."Continue a tricotomia" disse o enfermeiro para a jovem colega, enquanto saía apressado.
Quase entrou em pãnico. "Não, ela não vai pegar nisto. Por favor tirem-me deste filme. Ai mãezinha, ela pegou-lhe mesmo! Caramba, ainda se fosse uma feia. Pensam que sou de ferro?" Transpirava e já nem dores sentia, enquanto a enfermeira concentrada na sua tarefa, não notava a agitação que o invadira. Mas de repente notou e ficou tão surpreendida, que permaneceu estática sem saber se deveria repreendê-lo, ou ignorá-lo e sorrir como fazia a auxiliar que se apercebera da situação. Ficou ruborizado com o embaraço, aflorando-lhe de seguida um sorriso malandro, ufano daquele priapismo exuberante, que só aos mancebos de 18 anos assiste. Pôs um olhar suplicante e tentou amenizar o ambiente, titubeando entre dentes para a jovem enfermeira:
- Pode deixar. Pode deixar, que já não cai ...