
Ernest Hemingway
Eram muito débeis os nossos antepassados, se comparados com as bestas com quem partilhavam o paraíso primevo. As enormes e afiadas garras que apetrecham os predadores, evoluíram no homem como raquíticas unhas, que mal servem para coçar pulgas. Por sua vez a dentição minúscula e certinha proporcionou o linguajar e belos sorrisos ao género humano, mas é inútil na hora de defesa contra os grandes caninos serrilhados da outra bicharada. Tais deficiências foram suplantadas pela inteligência, que nos mostrou a mais valia da vivência em bandos e a conveniência da ocupação de cavernas, espaço físico fundamental para protecção e organização de actividades. Dessa caverna ancestral derivaram com a evolução os locais públicos como os tribunais, prisões, hospitais e escolas, para suprir necessidades comuns e outros como os foruns, anfiteatros, circos, estádios e tabernas, para fins lúdicos. Assim temos vivido por milénios tentando evitar os primeiros e esgotando lotações nos segundos, sobretudo em tabernas e bares, que suscitam a quase unanimidade de apreciação dos mortais.
Ah, os bares! Já alguma vez se questionaram sobre a sua importância social? Já imaginaram como seria enfadonha a vida sem bares? Já pensaram no problema que existiria sem esses locais onde descarregamos angústias, tratamos mágoas, afogamos derrotas, celebramos vitórias e comemoramos efemérides? Como saberíamos o valor do empréstimo para o carro que comprou o vizinho do quinto, do nascimento da filha do padeiro, das porradas que o Silva dá à mulher, das infidelidades da vizinha do rés-do-chão, do fora de jogo que era mas não foi? A minha aldeia sem tabernas? O meu bairro sem tascas? A minha cidade sem cafés? O mundo sem bares? Inimaginável! Deprimente...
Num destes fins de semana diverti-me imenso ao ouvir os comentários de um amigo de Salamanca sobre este tema, enquanto debicávamos “jamon ibérico con un vaso de tinto Rioja”, ao balcão de um bar na Plaza Mayor mais bela de Espanha.
“Um povo que adora sair á rua e “ir de copas”, não entende um mundo sem bares. Pode haver aldeias sem escola, sem farmácia, sem Junta de Freguesia. Sem taberna ou bar, nem pensar. E sabes porquê? É que nos bares toleram-te atitudes que noutro local te reprovam ou proíbem. Pedes uma bebida mal humorado? Servem-te com um sorriso. Entornas e partes um copo? Limpam e substituem-no prontamente. Cai-te uma ponta de cigarro no chão? Não se passa nada. Pedes outro copo? Não tens o ar reprovador da tua sogra a impedir-te. Queres presunto, chouriço e queijo? Nenhum chato vai dissertar sobre os malefícios do colesterol. E já reparaste num fenómeno, desde que existe televisão? A glória dos bares atinge-se quando aí se reúne a tribo do futebol. Antigamente punham atrás do balcão uns papéis onde se lia: “há bifanas”; “há rissóis”; “há camarões”. Agora, afixam um cartaz á porta que diz: “Eurocopa de Futebol ás 20 - Portugal - Espanha”. Não há guerra com o comando da TV. Há futebol, vê-se futebol. Há novela, vê-se futebol. Há telejornal, vê-se futebol. Há eleição das misses, grava-se o futebol. E os nomes fascinantes que alguns bares têm! O “Bar Bitúrico”, o “Juan Sebastian Bar”, a “Tasca Brão”, a “Tasca Neura”, “Prejudicado”, “Pisa o Risco”. Existe um que nem bebidas vende, o “Bar Claysbank”. Nos bares tornamo-nos solidários e mais altruístas que em qualquer parte, pois discutimos por querermos pagar. Onde mais acontece isso? Numa igreja? Aí passa um fulano com uma bandeja para que esportulemos algum. Numa reunião de condóminos? Imagina um vizinho a dizer que não senhor, caluda, quem paga a cabovisão sou eu. Numa farmácia? Não passa pela cabeça de ninguém propor-se pagar a próxima rodada de Aspirinas.”
Tenho pensado no assunto e também encontrei algumas razões para admirar a filosofia inerente aos bares. Como são inspirados os escritos dos clientes nas latrinas, ou as máximas exibidas nas paredes por alguns proprietários! Vejam esta preciosidade: “Promoção: Se você beber uma cerveja, a casa oferece-lhe outra e você só paga duas”. E esta: “Este estabelecimento encerra às terças-feiras, para descanso dos fígados dos estimados clientes”. Ou esta na tasca do Pepe em Zarza la Mayor: “Hoy hace un dia precioso. Verás como viene alguno y lo jode”. Ou: “Não seja SEDEntário. Beba qualquer coisa”. E ainda: “No dia em que li sobre os malefícios causados pela bebida, deixei de ler”.
Ernest Hemingway que era versado neste assunto, justificou alguns excessos afirmando que “ás vezes um homem inteligente é forçado a beber uns copos, para conseguir passar uns tempos com os burros”.
Além de que um bar é barato. Não?! Então façamos contas. Entras e pedes um café. Aí tens direito a mesa e cadeira. Se faz calor refrescam-te com ar condicionado, se está frio aquecem-te. Desfrutas do jornal, da conversa e da companhia dos amigos se for o caso. Tens televisão de canais pagos á borla. Se te apetece, utilizas as instalações sanitárias, onde gastas papel, água, sabão e toalhetes. Fumas? Põem-te um cinzeiro limpinho. E no fim pagas uns míseros 60 cêntimos. Caro? Como caro?!
Convido toda a gente para a próxima rodada. Bebam com moderação e façam o favor de ser felizes.