Blog EntryO Ás de CoposJun 24, '08 10:17 PM
for everyone

Ernest Hemingway

 

 

Eram muito débeis os nossos antepassados, se comparados com as bestas com quem partilhavam o paraíso primevo. As enormes e afiadas garras que apetrecham os predadores, evoluíram no homem como raquíticas unhas, que mal servem para coçar pulgas. Por sua vez a dentição minúscula e certinha proporcionou o linguajar e belos sorrisos ao género humano, mas é inútil na hora de defesa contra os grandes caninos serrilhados da outra bicharada. Tais deficiências foram suplantadas pela inteligência, que nos mostrou a mais valia da vivência em bandos e a conveniência da ocupação de cavernas, espaço físico fundamental para protecção e organização de actividades. Dessa caverna ancestral derivaram com a evolução os locais públicos como os tribunais, prisões, hospitais e escolas, para suprir necessidades comuns e outros como os foruns, anfiteatros, circos, estádios e tabernas, para fins lúdicos. Assim temos vivido por milénios tentando evitar os primeiros e esgotando lotações nos segundos, sobretudo em tabernas e bares, que suscitam a quase unanimidade de apreciação dos mortais.

Ah, os bares! Já alguma vez se questionaram sobre a sua importância social? Já imaginaram como seria enfadonha a vida sem bares? Já pensaram no problema que existiria sem esses locais onde descarregamos angústias, tratamos mágoas, afogamos derrotas, celebramos vitórias e comemoramos efemérides? Como saberíamos o valor do empréstimo para o carro que comprou o vizinho do quinto, do nascimento da filha do padeiro, das porradas que o Silva dá à mulher, das infidelidades da vizinha do rés-do-chão, do fora de jogo que era mas não foi?  A minha aldeia sem tabernas? O meu bairro sem tascas? A minha cidade sem cafés? O mundo sem bares? Inimaginável! Deprimente...

Num destes fins de semana diverti-me imenso ao ouvir os comentários de um amigo de Salamanca sobre este tema, enquanto debicávamos “jamon ibérico con  un vaso de tinto Rioja”, ao balcão de um bar na Plaza Mayor mais bela de Espanha.

Um povo que adora sair á rua e “ir de copas”, não entende um mundo sem bares. Pode haver aldeias sem escola, sem farmácia, sem Junta de Freguesia. Sem taberna ou bar, nem pensar. E sabes porquê? É que nos bares toleram-te atitudes que noutro local te reprovam ou proíbem. Pedes uma bebida mal humorado? Servem-te com um sorriso. Entornas e partes um copo? Limpam e substituem-no prontamente. Cai-te uma ponta de cigarro no chão? Não se passa nada. Pedes outro copo? Não tens o ar reprovador da tua sogra a impedir-te. Queres presunto, chouriço e queijo? Nenhum chato vai dissertar sobre os malefícios do colesterol. E já reparaste num fenómeno, desde que existe televisão? A glória dos bares atinge-se quando aí se reúne a tribo do futebol. Antigamente punham atrás do balcão uns papéis onde se lia: “há bifanas”; “há rissóis”; “há camarões”. Agora, afixam um cartaz á porta que diz: “Eurocopa de Futebol ás 20 -  Portugal - Espanha”. Não há guerra com o comando da TV. Há futebol, vê-se futebol. Há novela, vê-se futebol. Há telejornal, vê-se futebol. Há eleição das misses, grava-se o futebol. E os nomes fascinantes que alguns bares têm! O “Bar Bitúrico”, o “Juan Sebastian Bar”, a “Tasca Brão”, a “Tasca Neura”, “Prejudicado”, “Pisa o Risco”. Existe um que nem bebidas vende, o “Bar Claysbank”. Nos bares tornamo-nos solidários e mais altruístas que em qualquer parte, pois discutimos por querermos pagar. Onde mais acontece isso? Numa igreja? Aí passa um fulano com uma bandeja para que esportulemos algum. Numa reunião de condóminos? Imagina um vizinho a dizer que não senhor, caluda, quem paga a cabovisão sou eu. Numa farmácia? Não passa pela cabeça de ninguém propor-se pagar a próxima rodada de Aspirinas.”

Tenho pensado no assunto e também encontrei algumas razões para admirar a filosofia inerente aos bares. Como são inspirados os escritos dos clientes nas latrinas, ou as máximas exibidas nas paredes por alguns proprietários! Vejam esta preciosidade: “Promoção: Se você beber uma cerveja, a casa oferece-lhe outra e você só paga duas”. E esta: “Este estabelecimento encerra às terças-feiras, para descanso dos fígados dos estimados clientes”. Ou esta na tasca do Pepe em Zarza la Mayor: “Hoy hace un dia precioso. Verás como viene alguno y lo jode”. Ou: “Não seja SEDEntário. Beba qualquer coisa”. E ainda: “No dia em que li sobre os malefícios causados pela bebida, deixei de ler”.

Ernest Hemingway que era versado neste assunto, justificou alguns excessos afirmando que “ás vezes um homem inteligente é forçado a beber uns copos, para conseguir passar uns tempos com os burros”.

Além de que um bar é barato. Não?! Então façamos contas. Entras e pedes um café. Aí tens direito a mesa e cadeira. Se faz calor refrescam-te com ar condicionado, se está frio aquecem-te. Desfrutas do jornal, da conversa e da companhia dos amigos se for o caso. Tens televisão de canais pagos á borla. Se te apetece, utilizas as instalações sanitárias, onde gastas  papel, água, sabão e toalhetes. Fumas? Põem-te um cinzeiro limpinho. E no fim pagas uns míseros 60 cêntimos. Caro? Como caro?!

Convido toda a gente para a próxima rodada. Bebam com moderação e façam o favor de ser felizes.


13 CommentsChronological   Reverse   Threaded
mariacarvalhosa wrote on Jun 24
Muito bem, Filipe! Dissertação bem divertida sobre um tema do quotidiano que, de tão próximo e familiar, nos passa, geralmente, ao lado. Gostei.
Um beijo.
filipeantunes wrote on Jun 25
Obrigado Maria. Ergo a minha taça por ti. Bjs.
elendemoraes wrote on Jun 25
Oi Felipe,
Gostei de saber um pouco mais sobre o universo masculino.
Continue contando! As conversas que rolam nos bares, nós mulheres sempre ficamos curiosas...rs...
Parabéns!
Abraço.
Elen
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filipeantunes wrote on Jun 27, edited on Jun 27
Gostei de saber um pouco mais sobre o universo masculino.
Pessoalmente considero os bares locais fascinates. Aprende-se e desaprende-se aí muito. Obrigado Elen.
tremontelo wrote on Jun 27
Caramba, Filipe, estás a merecer um site que dê maior projecção aos teus escritos. Porque não pensar vir para o blogger expor-te? É claro que farias como eu ou a Maria a reproduzi-los aqui para que os nossos amigos mais chegados do Multiply continuassem a receber.

Já te disse, e não se perde nada se eu insistir, que escreves bem, os teus temas são originais e muito interessantes e fazes a coisa sempre de maneira a ser tragado pelo leitor com muito agrado.

Um primeiro comentário a este texto, de índole mais pessoal. É um texto sobre lugares, neste caso a taberna, e como eu gosto de textos sobre lugares! Não se trata do Coliseu de Roma, do Louvre, da porta de Bradenbourg ou do Centro Cultural de Belém. Não é lugar marcado pela monumentalidade ou pela assinatura de arquitecto. É lugar "comum", onde se tece a vida das pessoas, onde se afirmam as solidariedades (mesmo que só masculinas). É lugar vulgar que a usura da modernidade tende a fazer esfumar na desmemória dos tempos. Trazer os velhos lugares à memória é o dever, a missão, o imperativo categórico de uma estirpe de novos médicos, ou de velhos intelectuais (que coisa desgastada e sem cotação na NYSE!), que se ocupam na saúde, senão na sobrevivência, do espírito.

A "taberna" não é um lugar qualquer. A etimologia latina insinua a significação de uma casa construída de "tábuas", uma barraca, atestando a sua humilde origem. É o sítio do companheirismo, sendo o companheiro o que manja o mesmo pão. Pão e vinho, diga-se, eucaristia completa.

A taberna é também o lugar da escrita e leitura. Todo o acervo do espírito humano está codificado em miniatura nas inscrições nas paredes das tabernas. Asserções simples, filosofemas complexos, intrincados e profundos.

A celebração do pão e da palavra, uma missa completa. Parodiando o franco Henri IV, uma taberna vale bem uma missa!

Ai, e foste buscar o Hemingway, o meu cronista preferido dos salões eruditos aux boulevards parisiens, da festa brava e da pesca luta corpo-a-corpo entre o sujeito intrépido e o objecto possante. Meu querido Hemingway!

Estou nesta rodada, Filipe. Mas venha já a seguinte.
filipeantunes wrote on Jun 27
Fantásticas as tuas apreciações, caro Rui. Talvez me convença. Obrigado e um abraço.
mafaldacoimbra wrote on Jun 27
Não sou muito de bares, nem de cafés. Prefiro a intimidade de um copo tomado em casa, com amigos. Isso não sigifica, naturalmente, que não tenha gostado do teu texto. Muito pelo contrário, reitero a opinião de que a tua escrita é firme e escorreita, bem lavrada, de leitura apetecível e muitíssimo agradável. Continua, Filipe. Como canta o Jorge Palma: "enquanto houver estrada para andar..."
Beijos.
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filipeantunes wrote on Jul 1
Bem-vinda Senhora do Alto Monte. Obrigado pela generosa crítica Mafalda. Bj.
byoscarluiz wrote on Jul 10
Hehe!
Com a crônica de Hemingway, o meu pedido de cerveja em vários idiomas parece ter vindo a calhar.
Seja sempre bem vindo aos meus mundos meu amigo do além-mar.
Também serei seu leitor sempre que o meu escasso tempo me permitir.
Grande abraço!
filipeantunes wrote on Jul 10
Obrigado caro Oscar. Seja bem-vindo, partilhemos um pouco do bom que o mundo ainda tem e brindemos à vida. Um abraço.
suallinda wrote on Jul 11
Filipe...é seu primeiro texto que leio, que bom cronista você é! gosto muito desses recortes do comum, do que passamos ao lado e deixamos de notar.
lindo!
beijos
Eliane
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