
“Vai bem Sr.ª Delfina? Estou a ir muito depressa?” Não respondeu, embrenhada nos seus devaneios. “Taxista novo e automóvel novo, não combinam lá muito bem com cliente velha como eu. Imaginará que nunca vi outros carros e que passei a minha vida eternamente nas berças? Ainda este mancebo atrevido andava de fraldas e já o meu Teodoro (que a terra lhe seja leve) tinha um carro de aluguer como Deus manda: Um Mercedes. E se ele andava rápido por essas estradas, que na altura mais pareciam caminhos de cabras! Que saudades. Belos tempos”. Engoliu nauseada a saliva que lhe inundava a garganta. Desde que tinha memória e até aos 81 anos feitos há pouco pelo S. Miguel, nunca enjoara, mas hoje sentia-se muito incomodada com aqueles odores. O pivete a plástico e gasóleo do carro já por si era mau, mas misturado com aquele aroma a pinho (seria pinho?), que vinha do penduricalho que o taxista exibia no retrovisor, estava a dar- lhe volta ao estômago. “E o calor? Porque ligou o aquecimento um homem desta idade? Ainda nem chegou aos trinta! Já não há homens como o meu Teodoro, (que a terra lhe seja leve), que nunca se queixou do frio. Um dia tão bonito lá fora e quase se sufoca aqui dentro”. Procurou em vão a manivela para baixar o vidro. “Ultimamente as coisas mudaram muito e então estas geringonças estão cheias de modernices. Será aquele botão ali á frente do apoio para o braço?” Carregou. O vidro escancarou-se e uma lufada de ar fresco inundou de roldão o habitáculo. “Oh santinha! Você quer matar-nos com alguma pneumonia? Ainda agora saiu do hospital e já quer voltar para lá?” Mexeu nervosamente naquela treta de botão, mas o vidro não se moveu. Pararam e foi ele fechá-lo, discutindo até aceitar o compromisso de deixar uma nesga da janela aberta. Conformada, deixou-se embalar pelas curvas suaves da estrada e aspirou profundamente o aroma dos grandes pinheiros, que pareciam um mar verde até onde a vista alcançava. “Isto sim, cheira a pinho, nada daquela mistela que o rapaz comprou numa qualquer loja de chinês”. Mais uma curva apertada no cimo do monte e vislumbrou por entre os grossos troncos as primeiras casas da aldeia lá no fundo, junto ao rio. Sentiu-se em paz, ali era o seu mundo. Ajeitou o braço fracturado, que lhe doía um pouco e mais uma vez contemplou curiosa o material que o modelava. O médico que a tratara disse-lhe que não era gesso, mas sim um material novo estrangeiro, de que já nem recordava o nome, tão leve que mal se sentia e duma alvura notoriamente contrastante com as negras vestes. Recatadamente cobriu-o com o xaile. Desde que o Teodoro falecera (que a terra lhe seja leve), era a primeira vez que algo claro lhe envolvia parte do corpo.
Viu o filho, a nora e a neta conversando com a vizinhança frente à sua casa e não conseguiu reprimir um sorriso de satisfação malévola, ao pensar no sobressalto que lhes ia dar. Uma enfermeira conhecida informara-a que tinham vindo de Lisboa na noite anterior e que pela tarde iriam à cidade buscá-la ao hospital. “Para me irem buscar ao hospital? Mais valia que gastassem gasolina e tempo para me visitarem quando estou boa”. Queria-lhes muito, sobretudo á pequena, tão parecida consigo quando catraia, mas estava zangada com a raridade das suas visitas. Pedira alta ao médico pela manhã e orgulhosamente metera-se no “carro de alugo” para lhes demonstrar que continuava independente e a saber tratar das suas coisas. “Que Deus Nosso Senhor me conserve a mente clara, pois como dizia o meu Teodoro (que a terra lhe seja leve), um pai e uma mãe fazem muita falta. Mas o juízo... ai o juízo”!
Saiu aliviada do táxi. Depois de se refazerem da surpresa, abraçaram-na efusivamente. “Que bonita é a miúda. Aos 18 anos está tão desenvolta e airosa como eu nessa idade”. A neta amparou-a com delicadeza, afagou-lhe o rosto, pegou-lhe no braço e propôs de brincadeira: “Avózinha, deixa-me pôr um autografo e desenhar uma flor no teu gesso, como fazemos aos colegas lá na escola”. “Isto não é gesso rapariga. É um material novo que o Dr. me pôs, por ter o esqueleto muito quebradiço. É leve, não suja, quando o põem é maleável e depois endurece com o ar”. “Caramba avó! Endurece só com o ar?” Sorriu brejeira e sussurrou ao ouvido da neta:
“Porquê esse espanto rapariga? Fica a saber que há coisas, que até endurecem só com o pensamento...”