Blog EntryOsso Duro de RoerMay 30, '08 2:31 PM
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“Vai bem Sr.ª Delfina? Estou a ir muito depressa?” Não respondeu, embrenhada nos seus devaneios. “Taxista novo e automóvel novo, não combinam lá muito bem com cliente velha como eu. Imaginará que nunca vi outros carros e que passei a minha vida eternamente nas berças? Ainda este mancebo atrevido andava de fraldas e já o meu Teodoro (que a terra lhe seja leve) tinha um carro de aluguer como Deus manda: Um Mercedes. E se ele andava rápido por essas estradas, que na altura mais pareciam caminhos de cabras! Que saudades. Belos tempos”. Engoliu nauseada a saliva que lhe inundava a garganta. Desde que tinha memória e até aos 81 anos feitos há pouco pelo S. Miguel, nunca enjoara, mas hoje sentia-se muito  incomodada com aqueles odores. O pivete a plástico e gasóleo do carro já por si era mau, mas misturado com aquele aroma a pinho (seria pinho?), que vinha do penduricalho que o taxista exibia no retrovisor, estava a dar- lhe volta ao estômago. “E o calor? Porque ligou o aquecimento um homem desta idade? Ainda nem chegou aos trinta! Já não há homens como o meu Teodoro, (que a terra lhe seja leve), que nunca se queixou do frio. Um dia tão bonito lá fora e quase se sufoca aqui dentro”. Procurou em vão a manivela para baixar o vidro. “Ultimamente as coisas mudaram muito e então estas geringonças estão cheias de modernices. Será aquele botão ali á frente do apoio para o braço?” Carregou.  O vidro escancarou-se e uma lufada de ar fresco inundou de roldão o habitáculo. “Oh santinha! Você quer matar-nos com alguma pneumonia? Ainda agora saiu do hospital e já quer voltar para lá?” Mexeu nervosamente naquela treta de botão, mas o vidro não se moveu. Pararam e foi ele fechá-lo, discutindo até aceitar o compromisso de deixar uma  nesga da janela aberta. Conformada, deixou-se embalar pelas curvas suaves da estrada e aspirou profundamente o aroma dos grandes pinheiros, que pareciam um mar verde até onde a vista alcançava. “Isto sim, cheira a pinho, nada daquela mistela que o rapaz comprou numa qualquer loja de chinês”. Mais uma curva apertada no cimo do monte e vislumbrou por entre os grossos troncos as primeiras casas da aldeia lá no fundo, junto ao rio. Sentiu-se em paz, ali era o seu mundo. Ajeitou o braço fracturado, que lhe doía um pouco e mais uma vez contemplou curiosa o material que o modelava. O médico que a tratara disse-lhe que não era gesso, mas sim um material novo estrangeiro, de que já nem recordava o nome, tão leve que mal se sentia e duma alvura notoriamente contrastante com as negras vestes. Recatadamente cobriu-o com o xaile. Desde que o Teodoro falecera (que a terra lhe seja leve), era a primeira vez que algo claro lhe envolvia parte do corpo.

Viu o filho, a  nora e a neta conversando com a vizinhança frente à sua casa e não conseguiu reprimir um sorriso de satisfação malévola, ao pensar no sobressalto que lhes ia dar. Uma enfermeira conhecida informara-a que tinham vindo de Lisboa na noite anterior e que pela tarde iriam à cidade buscá-la ao hospital. “Para me irem buscar ao hospital? Mais valia que gastassem gasolina e tempo para me visitarem quando estou boa”. Queria-lhes muito, sobretudo á pequena, tão parecida consigo quando catraia, mas estava zangada com a raridade das suas visitas. Pedira alta ao médico pela manhã e orgulhosamente metera-se no “carro de alugo” para lhes demonstrar que continuava independente e a saber tratar das suas coisas. “Que Deus Nosso Senhor me conserve a mente clara, pois como dizia o meu Teodoro (que a terra lhe seja leve), um pai e uma mãe fazem muita falta. Mas o juízo... ai o juízo”!

Saiu aliviada do táxi. Depois de se refazerem da surpresa, abraçaram-na efusivamente. “Que bonita é a miúda. Aos 18 anos está tão desenvolta e airosa como eu nessa idade”. A neta amparou-a com delicadeza, afagou-lhe o rosto, pegou-lhe no braço e propôs de brincadeira:  “Avózinha, deixa-me pôr um autografo e desenhar uma flor no teu gesso, como fazemos aos colegas lá na escola”. “Isto não é gesso rapariga. É um material novo que o Dr. me pôs, por ter o esqueleto muito quebradiço. É leve, não suja, quando o põem é maleável e depois endurece com o ar”. “Caramba avó! Endurece só com o ar?” Sorriu brejeira e sussurrou ao ouvido da neta:

“Porquê esse espanto rapariga? Fica a saber que há coisas, que até endurecem só com o pensamento...”


20 CommentsChronological   Reverse   Threaded
tethea wrote on May 31
Adorei
A língua portuguesa de Portugal é tão diferente da nossa aqui no Brasil não é? É encantador!
Muit obrigada
Beijinhos
Ithéa
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filipeantunes wrote on Jun 1
tethea said
É encantador
Obrigado Tethea pela simpatia do comentário.
mariacarvalhosa wrote on Jun 1
Que verdadeira delícia, Filipe. Gostei muito do teu conto. Escreves de uma forma tão leve, como se não te exigisse qualquer esforço na procura de uma palavra mais adequada ou de uma frase hipoteticamente mais explícita ou mais demonstrativa do que pretendes narrar. A tua escrita sente-se que acontece ao correr das teclas (que vem substituír, naturalmente, o antigo "correr da pena"). Parabéns, amigo. Não desistas.
Um beijo com muito carinho.
filipeantunes wrote on Jun 2
Gostei muito do teu conto
Fico "babado" Maria. Obrigado. Bjs.
filipeantunes wrote on Jun 4
Caro António, já nesse tempo 80% dos táxis em Portugal eram Mercedes. Tal como agora.
stoleninc wrote on Jun 5
Adorei! Muitos parabéns.... (Fico à espera de mais! :) )
filipeantunes wrote on Jun 6
Fico à espera de mais!
Há mais aqui no meu site, no blog intitulado "Rabiscos".
tremontelo wrote on Jun 7
O corpo do outro (o Teodoro, nome de feitura ostrogoda que significa "poder do povo" e nada tem a ver com deus) é uma ausência aqui. Fisicamente está lá e que a terra lhe seja leve!

O lugar desse corpo, aqui, é a imensidão da memória. Da memória de um tempo em que as coisas - os penduricalhos, as geringonças e outras tretas - até não desfuncionavam.

De regresso a casa, "sentiu-se em paz, ali era o seu mundo".

E o corpo do seu amado Teodoro, que agora sobrevivia sob a negritude da sua viuvez, enrijeceu só com o pensamento. E, perfurando a leveza da terra, como flor de bolbo em pleno Inverno, brotou.

Delfina, novamente "desenvolta e airosa", espraiou o corpo na dureza de roer do brejo.

Sit tibi terra levis.
filipeantunes wrote on Jun 10
Sit tibi terra levis
Assim seja.
tremontelo wrote on Jun 10
Há mais aqui no meu site, no blog intitulado "Rabiscos".
Onde é que o raio dos "rabiscos" se meteram? fartei-me de procurar em tudo o que era sítio e ... népias!
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filipeantunes wrote on Jun 12
"Rabiscos é o titulo que pus ao blog, logo por baixo das fotos.
tremontelo wrote on Jun 12
Já groquei tudo. Um bom fim-de-semana, amigo.
elendemoraes wrote on Jun 15
Olá Felipe,
um conto direto, gostoso de ler e imaginar, tirando algumas palavras que eu, como brasileira, adivinho, mas não sei se são...
Amei!
Uma ótima semana!
Elen
luaprateada wrote on Jun 24
Belo texto!
Salutar humor e muito bem escrito!
Levei a leitura cada vez com mais GARGALHADAS! E... A *FINAL* FOI SONORISSIMA!!!

Fica Um ABRACO!
(E... ja' vao rareando as "DELFINAS", as janelas que se abrem a "manivela" e... os TEODOROS, ENTAO...EXTINGUIRAM-SE!)

VOLTAREI FILIPE (Preciso de BOAS GARGALHADAS!)!

Heloisa
............
filipeantunes wrote on Jun 24, edited on Jun 24
Preciso de BOAS GARGALHADAS
Isso basta-me Heloísa. Distribuir um pouco de felicidade é a intenção destes textos. Falamos daquele Portugal moribundo da nossa infãncia (e afinal do mundo também), quando ainda acreditavamos no sonho dum mundo melhor. Que lhe fizeram Heloísa? Que lhe fizemos?
Bjs e volta sempre.
luaprateada wrote on Jun 24
Que lhe fizeram Heloísa? Que lhe fizemos?
Eis ai' uma questao que me coloco diariamente:*QUE LHE FIZEMOS*???
Eu, que regra geral tenho respostas n ponta da lingua... para ESTA_E SIMIARES_, FICO MUDA! _QUE LHE FIZEMOS??? OU..."QUE LHE FIZERAM"???
............................Entretanto e, para manterms a SANIDADE MENTAL, eis que precisas sao UMAS BOAS GARGALHADAS! E... SEU FLUENTE E INTELIGENTE TEXTO, CONSEGUIU-O A 22%!
OBRIGADA!
E... vOLTARE, SIM, COM PRAZER SEMPRE QUE "minhas pernas" mo permitam!
E.... VIM trazer-LHE um pedaco de "nostalgia"(PARA MIM!) E... quem sabe, talvez consigamos VISLUMBRAR "OS SONHS"... RODOPIANDO POR AI', EM ALGUMA NUVEM PERDIDA NO CEU DOS SONHOS!!!!!!

SAUDE, PAZ E... ALEGRIA!

Heloisa
..............


filipeantunes wrote on Jul 2
Obrigado Heloísa. As canções dessa banda são sempre um conforto para os sonhos.
luaprateada wrote on Jul 2
Obrigado Heloísa. As canções dessa banda são sempre um conforto para os sonhos.
Carissimo FILIPE, nesta minha frase e pensamento "Entretanto e, para manterms a SANIDADE MENTAL, eis que precisas sao UMAS BOAS GARGALHADAS! E... SEU FLUENTE E INTELIGENTE TEXTO, CONSEGUIU-O A 22%!"
eu QUERIA DIZER 99%!!!!!_ONDE FUI EU "DESENCANTAR" os "22%"!???
Se me diverti IMENO COM ESSE BEM HUMARADO E INTELIGENTISSIMO TEXTO!
Perdoe minhas idiotices que de vez em quando troco NUMEROS E LETRAS (isto quando nao os "COMO"!) e faco uma baralhada!
.......................................................................
E...
"As canções dessa banda são sempre um conforto para os sonhos."
************************************************************************************POIS, SIM, SERAO!

TUDO DE BOM PARA SI*, CARO FILIPE!
ATE' SEMPRE!

Heloisa
.......................E... sempre que Lhe aparecer uma "heloisa" comendo letras ou dizendo incoerencias, RELEVE por favor!

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